COLUNA DENILSON ANDRADE
Portal Exposed Brasil — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2026.
Por Denilson Andrade — Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades
Por Denilson Andrade — Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades
O Retorno da Matriarca do Afeto: Cissa Guimarães Reassume o Sem Censura Entre a Densidade Dramática de Marjorie Estiano e a Anatomia da Elite de Michel Alcoforado
A tarde carioca ganhou contornos de acontecimento cultural. Após um providencial período de férias, a eletrizante Cissa Guimarães reassumiu o comando do mítico Sem Censura, na TV Brasil. O retorno da apresentadora, longe de ser apenas um rito protocolar de grade, operou como uma espécie de reconfiguração magnética do talk show vespertino. Cissa, com sua habitual fúria afetiva e ginga carioca imperecível, orquestrou uma bancada que transitou, com precisão e leveza, entre a alta voltagem da dramaturgia nacional e a autópsia sociológica dos privilégios brasileiros.
Para o debute pós-recesso, a produção não economizou na densidade dos assentos. A talentosa Marjorie Estiano foi a convidada de honra. A atriz, que possui a rara virtude de transformar silêncios em pura tensão dramática, sentou-se à mesa para destrinchar duas frentes de sua atual engrenagem criativa. Falou com contundência sobre o filme Precisamos Falar, um thriller psicológico incômodo baseado no best-seller holandês O Jantar, de Herman Koch. A obra joga luz sobre a condescendência e a barbárie velada da classe média alta diante de um crime brutal cometido por adolescentes.
Não bastasse o soco no estômago projetado nas salas de cinema, Estiano também desvelou os bastidores de Habeas Corpus, o recém-lançado drama jurídico da Netflix Brasil inspirado no emblemático trabalho do Innocence Project Brasil. Na trama, a atriz interpreta magistralmente Inez Franco, uma renomada professora de Direito Penal e ex-advogada criminalista. Sua personagem lidera um grupo de estudantes universitários em uma busca obstinada para reverter erros judiciais e condenações de homens inocentes. Assistir à simbiose intelectual e ao debate sobre o nosso ordenamento jurídico entre Cissa e Marjorie é sempre um deleite; há ali um entendimento geracional que dispensa notas de rodapé.
Do outro lado do espectro analítico da tarde, o antropólogo Michel Alcoforado trouxe à bancada o frescor provocativo de sua nova empreitada: a aula-espetáculo Coisa de Rico: Outras Histórias. Sob a direção sofisticada de Batman Zavareze e bebendo diretamente da fonte mítica das aulas de Ariano Suassuna, Alcoforado destilou anos de pesquisa de campo e anedotas ácidas sobre a opulência e as idiossincrasias das elites financeiras do país. O cientista social ofereceu o contraponto perfeito à densidade de Marjorie, ironizando o fetiche nacional pelo consumo suntuoso e a ilusão de fidalguia que permeia certos CEPs aristocráticos.
A costura do debate — que ainda contou com a perspicácia do médico e roteirista Márcio Maranhão, o homem por trás da verossimilhança de Sob Pressão e da inédita série Emergência 53, além das interventions sempre pontuais do debatedor residente Muka — provou que o Sem Censura, sob a batuta de Cissa Guimarães, recuperou sua vocação histórica de ágora eletrônica. O programa não apenas informa; ele diagnostica o espírito do tempo (zeitgeist) com uma lucidez despojada, mas rigorosamente instruída.
Cissa voltou com o magnetismo renovado e a malícia sagaz de quem sabe que a boa televisão não se faz com monólogos pomposos, mas com a generosidade da escuta e a coragem da provocação. O portal Exposed Brasil aplaude o retorno; as tardes brasileiras voltam a ter o estofo intelectual que o telespectador exigente tanto merece.











