PORTAL EXPOSED BRASIL
COLUNA DENILSON ANDRADE
Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2026
Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2026
Por Denilson Andrade, Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades
A Redenção Crônica de Lília Cabral: O Alvorecer Dramático de Sheila e o Fim da Era dos ‘Papelzinhos’ no Cá Entre Nós
Em um mergulho confessional ao videocast de Fátima Bernardes e Beatriz Bonemer, a veterana da dramaturgia destrincha os bastidores desafiadores de História de Amor e o ultimato que moldou o topo de sua carreira.
Há um certo frescor no choque geracional promovido pelo videocast Cá Entre Nós, conduzido com leveza por Fátima Bernardes e sua filha, a designer Beatriz Bonemer. Contudo, o programa transcendeu a mera descontração digital quando a icônica Lília Cabral acomodou-se confortavelmente nas poltronas do estúdio e hablou absolutamente tudo, destrinchando sua própria arqueologia profissional. Longe dos salamaleques institucionais que costumam plastificar as entrevistas de bastidores, Lília entregou discernimento puro e uma verve deliciosamente despachada ao reviver o vulcão criativo que foi a era de ouro da teledramaturgia brasileira.
O epicentro da conversa orbitou o ano de 1995, época em que Manoel Carlos costurava as dores da classe média carioca em História de Amor. No papel da obsessiva Sheila, Lília enfrentou não apenas a complexidade psicológica da personagem, mas também o crivo implacável do lendário diretor Paulo Ubiratan. Com a lucidez aguçada de quem não precisa dourar a pílula, a atriz revelou o ultimato que recebeu nos primeiros dias de gravação: ou ela dava conta do recado, entregando a excelência milimétrica exigida pela direção, ou seria sumariamente limada do folhetim.
Essa cobrança, que hoje causaria síncope nos setores de recursos humanos mais higienistas da modernidade, foi classificada por Lília como o divisor de águas definitivo de sua trajetória. Apesar de reconhecer que Ubiratan podia ser bem rude, ríspido e impaciente nos bastidores, a atriz fez questão de enaltecer o brilhantismo inequívoco do diretor. Ela destacou que ele possuía um tino comercial e artístico fora de série para direcionar toda aquela complexa engrenagem televisiva e novelística, coordenando equipes e escalando elencos com maestria para que absolutamente tudo saísse perfeito no ar. Ubiratan, um calculista do audiovisual conhecido por seu olho incorruptível e pulso de ferro, enxergou na pressão o combustível necessário para extrair a genialidade da atriz.
O desfecho dessa jornada não foi hercúleo, mas sim profundamente desafiador, tornando-se o papel que a atriz mais amou e que hoje guarda em um lugar absolutamente especial de sua memória afetiva. O resultado foi arrebatador. A atuação densa, dramática e profunda de Lília na pele de Sheila rompeu definitivamente com o rótulo de coadjuvante mediana voltada apenas a papéis pequenos ou puramente cômicos.
Aliar a visceralidade exigida pela personagem à naturalidade do texto cotidiano e impecável de Manoel Carlos foi o grande triunfo de Lília. Ela precisou de uma preparação minuciosa para dar o tom exato daquela realidade sem cair no melodrama caricato. A veterana fez questão de enaltecer o grandioso elenco da novela, uma escolha precisa de talentos, aliada a trilhas sonoras marcantes que corroboraram para que tudo ali atingisse o estado da arte sob o comando de Ubiratan. O sucesso foi tamanho que Lília estampou a cobiçada capa do LP nacional da novela, chancelando definitivamente aquele momento como o grande divisor de águas de sua trajetória artística. A partir dali, a atriz alçou voos altos. O mercado e os diretores finalmente entenderam o tamanho de seu estofo dramático, passando a escalá-la para papéis infinitamente melhores. Mesmo quando as personagens figuravam na categoria de coadjuvantes, eram construídas como joias sob medida, escritas especialmente para que ela pudesse brilhar e exercer seu magnetismo cênico.
O papo íntimo desvendou outras facetas da atriz, que resolveu abrir o baú e jogar luz sobre as amarras invisíveis de seu passado. Lília confessou que sua entrada no universo teatral foi um verdadeiro ato de rebeldia silenciosa, pois prestou o temido exame para a Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP) totalmente à revelia de seu pai. Criador severo, rigoroso e assumidamente contra a escolha da filha de seguir a carreira de atriz, ele sequer desconfiava que ela cursava artes cênicas.
Essa criação extremamente rígida, segundo ela, deixou marcas indeléveis que ditaram o ritmo de seus passos. A veterana explicou que o peso dessa severidade limitou sua liberdade de errar e ousar, fazendo com que ela não se arriscasse tanto ao longo da jornada por puro medo do deslize ou da falha. Ao traçar um paralelo familiar, Lília citou com orgulho e uma ponta de admiração como sua filha, Giulia Bertolli, que agora brilha não apenas como atriz, mas também como roteirista, é muito mais atirada, livre e destemida para se jogar na vida e no ofício, despida das barreiras psicológicas que outrora cercaram a mãe.
A timidez inicial imposta pelo ambiente doméstico refletiu-se nos primeiros anos de sua trajetória na televisão, quando os papéis destinados a ela eram invariavelmente pequenos. Lília relembrou, com uma pontinha de deboche elegante, que muitos faziam questão de rotular suas aparições como mero “papelzinho”. No entanto, graças ao seu talento avassalador, essas personagens ganhavam corpo e cresciam exponencialmente no meio das tramas. A atriz não escondeu o prazer quase catártico de ver a reação daqueles que a subestimaram, assistindo-os engolir em seco enquanto ela dominava a tela.
Essa gana pelo trabalho moldou uma operária obstinada da arte. Lília soltou o verbo ao declarar que odeia o famigerado jargão de “descansar a imagem”, expressão que, para ela, nada mais é do que um eufemismo gourmet para estar desempregada. Avessa ao ócio e com uma fome voraz de atuar, a veterana revela que sua grande paixão sempre foi emendar um projeto no outro, terminar uma novela já com o roteiro da próxima embaixo do braço, vivendo um personagem atrás do outro e mantendo-se em constante movimento criativo.
O relato de Lília no Cá Entre Nós soa quase revolucionário para os padrões atuais do showbusiness, onde o talento muitas vezes é eclipsado por dancinhas e polêmicas vazias. Ao rememorar a postura firme de Ubiratan, os embates familiares e o orgulho legítimo de sua própria evolução, a atriz não o faz com o rancor dos melindrosos, mas com um olhar vanguardista e sofisticado sobre o ofício. Ela reconhece que a exigência firme do diretor e os perrengues emocionais foram os cinzeis que lapidaram o diamante.
Para os leitores desta coluna, acostumados com o verniz diletante das subcelebridades contemporâneas, a lição de Lília Cabral é um manifesto contundente e oportuno: a grande arte sobrevive à base de suor, risco e profissionais que preferem o desconforto da perfeição à mediocridade do aplauso fácil. Uma simbiose brilhante entre o jornalismo enciclopédico e a fofoca de altíssimo nível, provando que, nos bastidores da ficção, a realidade é sempre mais fascinante.











