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Do Mofo ao Catálogo Digital: Globoplay Espana 30 Anos de Poeira e Arranca “Quem é Você?” do Limbo dos Pecados Televisivo

Entre comunicados explosivos de autores e pixels pré-históricos, o streaming faz as pazes com o tempo e absolve um folhetim que blindou o caos de seus bastidores com o brilho...

EXPOSED BRASIL
COLUNA DENILSON ANDRADE

Rio de Janeiro, 21 de Setembro de 2026
Por Denilson Andrade, Colunista de TV, Arte, Culture e Celebridades

Do Mofo ao Catálogo Digital: Globoplay Espana 30 Anos de Poeira e Arranca “Quem é Você?” do Limbo dos Pecados Televisivo

Há um fetichismo quase arqueológico em ver a vênus platinada abrir suas caixas-fortes mais protegidas. O resgate de “Quem é Você?” (1996), operado nesta segunda-feira pelo Projeto Resgate do Globoplay, carrega um ineditismo histórico que estremece os puristas da teledramaturgia: a trama nunca, em hipótese alguma, ganhou uma única reprise sequer. Sobreviveu trinta anos intacta, protegida da luz do dia, direto do arquivo morto para o bitrate do streaming. Não passou pelo crivo do Vale a Pena Ver de Novo, foi solenemente ignorada pelo Canal Viva ( hoje Globoplay novelas), e, por isso mesmo, ressurge hoje com o magnetismo intocado dos frutos proibidos.
Originalmente pensada como o testamento criativo da genial Ivani Ribeiro, que deixou o argumento pronto antes de falecer, a novela tornou-se, na verdade, um estudo de caso sobre a entropia nos bastidores globais. Solange Castro Neves assumiu a titularidade com a promessa de entregar o lirismo habitual de sua mentora, mas esbarrou em uma engrenagem que exigia pressa e modificações drásticas. A colcha de retalhos estética resultante disso foi impiedosamente dissecada pela crítica da época; João Luiz de Albuquerque, com seu habitual e implacável desdém no Jornal do Brasil, carimbou a obra simplesmente como “ruim”.
O que o público da época rejeitou, contudo, é exatamente o que faz a delícia do espectador contemporâneo, já vacinado pelo distanciamento irônico. Havia uma audácia quase vanguardista, ou puramente caótica, em tentar emplacar na faixa das 18h tramas que envolviam crises psicóticas severas, bailes de máscaras de um maneirismo afetado e o jovem Thiago Picchi travestido com os figurinos de sua própria mãe na vida real, Elizabeth Savala, para dar corpo ao andrógino Maurício. Quando Lauro César Muniz foi convocado às pressas para extirpar a “morbidez” do enredo e reescrever a história a partir do vigésimo capítulo, a audiência até respondeu com heróicos 35 pontos, mas o divórcio criativo já estava selado: a autora titular passou a disparar faxes coléricos à imprensa afirmando não reconhecer o próprio filho bastardo que ia ao ar.
Se o texto sofria de dupla personalidade, a engenharia técnica da emissora usava a produção como tubo de ensaio para o futuro. “Quem é Você?” foi a pioneira absoluta da televisão brasileira ao projetar digitalmente 82 ambientes em computação gráfica antes de erguer um único prego na cenografia. Hoje, esses pixels primitivos de 1996 ostentam um charme cyberpunk deliciosamente datado.
 O que salvava o barco do naufrágio textual era a robustez de um elenco veterano escalado para dar dignidade ao caos. Se a juventude tateava em tramas andróginas bizarras, os pilares da velha guarda sustentavam a audiência no talento das interpretações viscerais de Elizabeth Savala e Cássia Kis, enquanto o saudoso Francisco Cuoco emprestava seu charme magnético ao patriarca Nelson Maldonado, o motor de toda a discórdia familiar. Ao lado deles, coadjuvantes de luxo transformavam os diálogos claudicantes em momentos de pura carpintaria cênica, o frescor de Alexandre Borges em seus primeiros passos como galã icônico e a estonteante Luiza Tomé na pele de uma improvável pilota de Fórmula 1 estão finalmente ao alcance de um clique no catálogo de novelas do Globoplay.
 
Mas a verdadeira alma e o charme da produção residiam no núcleo da Casa de Repouso Jardim das Flores, um verdadeiro relicário de talentos há muito afastados da tela que davam dignidade ao caos. Ver gigantes como Eloísa Mafalda (a esfuziante ex-vedete Kitty), Ruth de Souza (a melancólica pianista Isolina), Eva Todor (a obstinada Augusta), André Valli (o impagável Plínio), Martha Overbeck (a elegante Mariana), Alberto Perez (o lúdico Vô Samuca), Castro Gonzaga (Arquimedes), além de Norma Geraldy, Dirce Migliaccio, Ênio Santos, Vanda Lacerda e Lídia Mattos é entender o valor que faltou à obra em sua exibição original. Esses monstros sagrados souberam valorizar a carpintaria cênica de cada frame, transformando o reflorescimento do amor e o abandono da terceira idade em um banquete artístico de altíssimo nível. Uma grife que finalmente recebe a justa aclamação histórica no streaming.
 
Para além das atuações e dos pioneiros cenários virtuais em computação gráfica, a novela operava como um autêntico toca-fitas dos anos 90, embalada pelas canções mais executadas nas rádios da época. A trilha nacional trazia a sofisticação melancólica de Zélia Duncan e Chico Buarque pontuando os dramas urbanos. Já a seleção internacional era um colosso pop que sintetizava o suprassumo das FMs em 1996: o ouvinte era bombardeado pelo fenômeno eurodance de Missing (Everything But The Girl), o pop contestador de One of Us
(Joan Osborne), os vocais operísticos de Nirvana (El Bosco) e o romantismo arrebatador de Because You Loved Me (Celine Dion).
Salva do esquecimento eterno, “Quem é Você?” está finalmente disponível no catálogo de novelas do Globoplay. Em uma era de algoritmos pasteurizados e tramas covardes que operam sob o medo do cancelamento, mergulhar no descontrole criativo, na trilha nostálgica e nos bastidores canibais dessa obra nunca reprisada é mais do que nostalgia. É um autêntico e irresistível deleite subversivo.
 
 

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