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COLUNA DENILSON ANDRADE
Cultura, Arte, Celebridades e os Bastidores da Telinha
RIO DE JANEIRO — 18 DE SETEMBRO
COLUNA DENILSON ANDRADE
Cultura, Arte, Celebridades e os Bastidores da Telinha
RIO DE JANEIRO — 18 DE SETEMBRO
O Paradoxo dos 76 Anos da Caixa de Maravilhas: A Devoção de um Olhar que Habita o Passado e o Futuro
Por Denilson Andrade
Há quem insista, numa ingenuidade quase tocante, que a televisão aberta agoniza sob os escombros do streaming e a tirania dos algoritmos de bolso. Tolice. Como um profissional forjado sob a luz desse veículo e, acima de tudo, como um produtor de TV, realizador audiovisual e consumidor assíduo que venera e disseca essa potência de massa, recuso-me a assinar esse atestado de óbito precoce. Minha história se confunde com a dela. Desde que nasci, nutro um amor profundo, uma devoção quase religiosa por essa máquina de contar histórias que moldou quem sou. A televisão brasileira celebra oficialmente os seus 76 anos, um marco cronológico que evoca aquela noite mítica de 18 de setembro de 1950, quando a audácia fez nascer a nossa primeira transmissão.
Hoje, eu me curvo diante desse veículo que se metamorfoseou. A antiga caixa de madeira agora se apresenta como um imponente painel de LED de altíssima definição, uma evolução que me aguça e me instiga a consumi-la ainda mais, tanto pelo olhar técnico do realizador quanto pelo prazer do espectador voraz. É através da tecnologia atual das Smart TVs que opero meu ritual favorito: revisitar os grandes clássicos das décadas de 1980 e 1990. Assistir a obras-primas como a sensível História de Amor, a encantadora Felicidade ou a passional Por Amor em telas monumentais, com cores trabalhadas e um áudio purificado, desperta uma nostalgia irresistível, mas também promove um desbravamento intelectual. Fica evidente como a televisão do passado era extraordinariamente bem-feita. Mesmo com recursos tecnológicos escassos, o coração artístico daquelas produções era pulsante, ousado e cheio de vitalidade.
Esse mesmo anseio tecnológico me faz projetar o futuro do resgate histórico nos streamings. Anseio pelo dia em que poderei rever, na opulência dos painéis de LED atuais, a era de ouro infantojuvenil e musical capitaneada por Xuxa Meneghel. Quero desbravá-la novamente. Quero enxergar a riqueza milimétrica de detalhes dos cenários faraônicos do Xou da Xuxa, do Xuxa Park, do revolucionário Planeta Xuxa, além do Xuxa Hits, do Paradão da Xuxa 92 e do Programa Xuxa 93. Na época, consumíamos essa explosão visual em limitadas TVs de tubo, pequenas e incapazes de fazer justiça à grandiosidade daquela direção de arte. Hoje, a tecnologia nos permite redescobrir a história com os olhos que ela sempre mereceu.
O epicentro dessa engrenagem sempre teve CEP e sotaque muito claros: o Rio de Janeiro. A identidade da nossa televisão foi desenhada sob a luz única da orla carioca, no lirismo urbano do Leblon de Manoel Carlos ou no Projac, erguido entre as montanhas de Jacarepaguá. O Rio não é apenas um cenário; é a alma pulsante, o berço estético da teledramaturgia que o Brasil aprendeu a venerar. A bossa, o drama suburbano e a crônica do cotidiano fluminense ditaram o ritmo e o linguajar dos lares de Norte a Sul do país. Falar dos 76 anos da TV é, inevitavelmente, celebrar o Rio de Janeiro como a grande capital da imaginação nacional.
No entanto, o diagnóstico deste observador perspicaz e pragmático não pode se blindar por completo pelo afeto. Nossa telinha padece de um paradoxo fascinante. Ela nunca foi tão jovem no aspecto tecnológico, mas simultaneamente demonstra uma incômoda covardia em sua capacidade criativa contemporânea. Assistimos a uma indústria que passou a tratar a novidade não como vocação, mas como um risco proibitivo. O ecossistema televisivo atual olha tanto para o retrovisor que o que vemos desfilar na programação é uma procissão de remakes e reciclagens industriais. Nos bastidores de plástico e vidro de hoje, as grandes redes parecem ter trocado o risco estético pela anestesia da familiaridade.
O tombo criativo se escancara quando espiamos as coxias do poder. Na TV Globo, a outrora infalível fábrica de sonhos hoje vive o drama da autocensura comercial e o medo de ousar no horário nobre, engolida por pesquisas de opinião que engessam a narrativa antes mesmo da estreia. Enquanto isso, na Record, a outrora promissora dramaturgia perde-se na repetição exaustiva de sagas bíblicas em formato de linha de montagem, preferindo o conforto de um público nichado ao desafio de dialogar com a complexidade do Brasil real. Ambas amortizam o medo da rejeição com fórmulas repetitivas. Nos anos dourados, a TV brasileira criava fenômenos permanentes de dramaturgia e comportamento. Hoje, os abalos sísmicos culturais que ela provoca são puramente episódicos, restritos a momentos isolados de engajamento digital. O veículo tem uma quantidade soberba de memória, mas começa a demonstrar uma preocupante escassez de futuro se insistir em apenas replicar o que já foi feito.
Contrariando a tese elitista dos céticos, a televisão não emborreceu este colunista de TV e produtor de TV; ela me elevou intelectualmente. Muito do que li, do que compreendi sobre o mundo e do repertório que carrego foi absorvido através da tela. Foi assistindo ao dinâmico Vídeo Show que desvendei a engrenagem pulsante dos bastidores, a carpintaria das telenovelas e a engenharia do entretenimento. Minha bagagem musical expandiu-se e ganhou forma viva diante dos meus olhos. Programas emblemáticos como o inquieto Programa Livre, o longevo Altas Horas e as produções revolucionárias dos canais Multishow e MTV me elevaram musicalmente ao materializar o som em imagem. A televisão dava corpo e rosto a quem entoava e dançava aquelas melodias, provando que a música não é um mero exercício de escuta, mas uma experiência visual fascinante e magnética. Da mesma forma, debates intelectuais e de comportamento ganharam força em mim através de formatos como o histórico Sem Censura, que até os dias de hoje se mostra profundamente relevante, necessário e atual sob o comando firme e caloroso de Cissa Guimarães. A televisão educou meu olhar e refinou minha sensibilidade.
A paixão, portanto, permanece intacta. A TV brasileira não vai morrer porque ela é o espelho de quem somos e o motor da nossa identidade. Falo por mim e por uma nação de brasileiros que encontraram na tela uma janela para o conhecimento. Que os deuses do audiovisual devolvam às redes a audácia do erro e o vigor artístico de outrora, permitindo que a modernidade tecnológica dos painéis de LED seja o palco para uma criatividade que volte a ser verdadeiramente insolente, nacional, culta e grandiosa.











