A produção de açúcar no Centro-Sul do Brasil foi revisada para 38,9 milhões de toneladas na safra 2026/27, uma redução de 400 mil toneladas em relação à estimativa anterior. Essa diminuição é atribuída à menor moagem de cana e à queda na concentração de açúcares recuperáveis, conhecida como ATR. A nova projeção faz parte do Agro Mensal, relatório da Consultoria Agro do Itaú BBA, que também aponta um aumento no déficit global de açúcar, agora estimado em 2,1 milhões de toneladas para o ciclo 2026/27.
O cenário de menor oferta, combinado com tensões geopolíticas e a valorização do petróleo, tem impulsionado os preços do açúcar em Nova York. O contrato nº 11 do açúcar bruto, com vencimento em outubro, atingiu uma média de 17,7 centavos de dólar por libra-peso nos 30 dias encerrados em 11 de setembro. A valorização, que começou em agosto, reflete tanto os fundamentos do mercado de açúcar quanto fatores macroeconômicos e geopolíticos.
Impactos das tensões geopolíticas e clima na produção
A escalada do conflito no Oriente Médio, que levou o petróleo Brent a superar os US$ 100 por barril, pode aumentar a competitividade dos biocombustíveis, influenciando a destinação da cana para a produção de etanol. Além disso, a guerra entre Rússia e Ucrânia, os efeitos do El Niño e preocupações com a dívida soberana dos Estados Unidos têm reforçado a percepção de risco inflacionário global, favorecendo a valorização das commodities agrícolas.
Enquanto isso, a Índia tem adotado medidas para controlar a inflação interna do açúcar, autorizando a importação de 1 milhão de toneladas de açúcar bruto com isenção tarifária. Essa ação, que inicialmente tinha um prazo até 31 de outubro de 2026, foi estendida, permitindo que as refinarias redirecionem parte do açúcar destinado à exportação para o mercado interno. Embora essas intervenções tenham reduzido os preços domésticos, elas também diminuíram a atratividade das vendas para o exterior.
Desafios na produção brasileira
No Brasil, a produção acumulada de açúcar entre abril e 16 de agosto ficou 2,7 milhões de toneladas abaixo do volume do mesmo período de 2025. As chuvas no Centro-Sul interromperam operações e reduziram o ritmo de processamento das usinas. O Itaú BBA revisou a estimativa de moagem de cana no Centro-Sul de 644,8 milhões para 639,7 milhões de toneladas, uma queda de 0,8%. A recuperação da moagem dependerá das condições climáticas e da capacidade operacional das usinas.
Além da menor quantidade de cana processada, a qualidade da matéria-prima é um obstáculo significativo para a produção de açúcar na safra 2026/27. A projeção de ATR foi reduzida de 138,3 para 136,4 quilos por tonelada de cana, resultando em uma queda de 2,1% no volume total de açúcares recuperáveis. Essa redução é atribuída ao clima chuvoso e ao elevado nível de impurezas da cana, que impactaram a qualidade do produto processado.
Apesar de um aumento no mix açucareiro, que passou de 46,2% para 46,8%, a produção no Centro-Sul foi reduzida de 39,3 milhões para 38,9 milhões de toneladas, o que representa uma queda de 1%. A estimativa para a produção total de etanol também caiu, passando de 38,5 bilhões para 37,7 bilhões de litros, evidenciando o impacto das chuvas sobre o rendimento da matéria-prima e a operação das usinas.
Perspectivas para o mercado global de açúcar
A revisão da safra brasileira, juntamente com as expectativas de menor produção em outras regiões, ampliou o déficit global projetado para 2026/27. O Itaú BBA estima agora uma diferença negativa de 2,1 milhões de toneladas entre produção e consumo, um aumento em relação à projeção anterior de 1,4 milhão de toneladas. Essa situação reforça um cenário de oferta internacional mais restrita, especialmente considerando a importância do Centro-Sul brasileiro nas exportações mundiais.
Os fundos de investimento também têm aumentado suas posições compradas em açúcar, revertendo uma posição líquida vendida e ampliando as apostas na valorização do produto. Em 1º de setembro, a posição líquida comprada alcançou 238.684 contratos, o maior nível desde janeiro de 2023. Contudo, a demanda física ainda é moderada, e uma valorização consistente dos preços dependerá da recuperação da demanda global.
O cenário atual, com um déficit global crescente e incertezas climáticas e geopolíticas, cria um ambiente favorável à manutenção das cotações do açúcar. No entanto, a cautela dos compradores pode limitar avanços mais intensos nos preços, tornando essencial o acompanhamento das condições de moagem no Centro-Sul e das intervenções no mercado indiano.











