COLUNA DENILSON ANDRADE
Por Denilson Andrade | Portal Exposed Brasil
Rio de Janeiro, 17 de setembro de 2026
Rio de Janeiro, 17 de setembro de 2026
Entre o Delírio e o Sangue: O Retorno Triunfal e Dionisíaco de Leona Cavalli aos Palcos Cariocas
Há quem defenda que o teatro carioca sobrevive de espasmos nostálgicos. Uma tolice monumental, desmentida no exato instante em que Leona Cavalli pisa em um palco. Após arrebatar plateias e esgotar bilheterias no Centro Cultural Banco do Brasil com o ácido e filosófico monólogo “Elogio da Loucura”, a atriz gaúcha prova que a estabilidade é o pior inimigo do gênio. Em vez de repousar sobre os louros da deusa de Erasmo de Rotterdam, Leona preferiu mergulhar de cabeça nas águas turvas, moralistas e visceralmente incestuosas de Nelson Rodrigues.
A novidade mais fulgurante da temporada, que este colunista apurou com o habitual faro para o que realmente importa no high-brow nacional, é o desembarque do icônico Teatro Oficina em terras cariocas. Após arrastar uma multidão de mais de 50 mil espectadores em São Paulo, a mítica companhia aporta no Rio de Janeiro para uma curtíssima e imperdível temporada, de 18 de setembro a 3 de outubro, integrando a aguardada primeira edição da Semana de Arte do Rio. Ocupando a imensidão do Galpão Ação da Cidadania, na Gamboa, o acontecimento transcende o mero circuito de entretenimento, cravando-se no coração da revitalização cultural da zona central.
Sob a regência minuciosa de Monique Gardenberg, a montagem de “Senhora dos Afogados”, escrita originalmente in 1947, surge como uma elegia operística e dionisíaca. O espaço cênico, atravessado por projeções audiovisuais e uma atmosfera impregnada de luto e sal, transforma-se em um organismo vivo que expõe a hipocrisia social. No centro desse delírio está Misael, vivido por Marcelo Drummond, um juiz sufocado por segredos que emergem do passado. Ao seu redor gravitam forças magnéticas: Lara Tremouroux, na pele da intensa filha Moema, e Leona Cavalli, encarnando a imponente e ressentida matriarca Eduarda. Apoiados por uma banda ao vivo e um coro arrebatador, o elenco destrincha o texto rodriguiano com a crueza e a solenidade que a burguesia tantas vezes tenta ignorar.
Para os devotos da sofisticação sem filtros, o cardápio de setembro guarda ainda outra excentricidade. No dia 23, Leona estende sua simbiose intelectual até a Lapa, onde capitaneia uma sessão de “Leituras Dramatizadas” na Casa Tá na Rua, integrando a programação do 4º Festival de Teatro Amir Haddad. O programa é um aceno à audácia, cruzando a rebeldia psicanalítica de Wilhelm Reich com o sarcasmo quinhentista de Rotterdam. Um verdadeiro banquete herético para quem já cansou do óbvio que costuma colonizar os palcos convencionais.
Leona Cavalli em cena é o paradoxo perfeito para a nossa época: aristocrática na técnica, anárquica na entrega, absolutamente jovem no frescor de suas escolhas estéticas. Em um Rio de Janeiro que frequentemente confunde barulho com arte, sua presença em dose dupla é o lembrete de que o teatro, quando inteligente e mordaz, ainda é o melhor espelho para as nossas fraturas sociais. Perder essa temporada no Galpão Ação da Cidadania não é apenas um lapso de agenda; é uma renúncia à própria relevância cultural.
SERVIÇO COMPLETO
- Espetáculo: Senhora dos Afogados, Teatro Oficina
- Local: Galpão Ação da Cidadania (Rua da Gamboa, 246, Santo Cristo, Rio de Janeiro, RJ)
- Temporada: De 18 de setembro a 03 de outubro de 2026
- Datas Específicas: Setembro (18, 19, 20, 24, 25, 26, 27) e Outubro (01, 02, 03)
- Horários: Quinta a sábado às 19h; Domingos às 17h
- Ingressos: Inteira R$ 120,00 | Meia-entrada R$ 60,00 (Vendas online e parcelamento em até 12x)
- Logística do Espectador: A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo. Os lugares não são numerados e o acesso é feito estritamente por ordem de chegada. Não há estacionamento disponível no local.
- Duração: 150 minutos
- Classificação Indicativa: 16 anos
FICHA TÉCNICA OFICIAL
- Texto: Nelson Rodrigues
- Direção e Trilha Sonora: Monique Gardenberg
- Família Drummond: Marcelo Drummond (Misael), Leona Cavalli (Dona Eduarda), Regina Braga (Dona Marianinha), Lara Tremouroux (Moema), Kael Studart (Paulo), Zizi Yndio (Dora) e Larissa Silva (Clarinha).
- Vizinhas: Cristina Mutarelli, Giulia Gam, Michele Matalon e Lígia Cortez.
- Cais: Roderick Himeros (Noivo), Sylvia Prado (Mãe do Noivo), Selma Paiva (Dona do Puteiro), Marcelo Dalourzi (Vendedor de Pentes) e Alexandre Paz (Sabiá).
- Mulheres da Vida: Danielle Rosa, Kelly Campêllo, Larissa Silva, Mariana de Moraes e Zizi Yndio do Brasil.
- Michês: Tony Reis e Victor Rosa.
- Banda Ao Vivo: Carlos Eduardo Samuel, Felipe Botelho e Pedro Gongom.
- Direção de Vídeo e Identidade Visual: Igor Marotti Dumont e Ciça Lucchesi.
- Arquitetura Cênica: Marília Piraju
- Figurino: Cássio Brasil | Visagismo: Sonia Ushiyama Souto
- Desenho de Luz: Pedro Felizes e Sarah Salgado
- Direção Musical: Felipe Botelho | Direção de Movimento: Marcia Rubin
- Direção de Cena: Elisete Jeremias e Rafael Bicudo
- Desenho e Operação de Som: Camila Fonseca
- Adereços e Objetos: Abmael Henrique | Máscaras Vizinhas: Ricardo Costa
- Direção de Produção: Tati Rommel | Produção: Ana Sette e Filipe Fonseca
- Produção Executiva: Anderson Puchetti | Assistência de Direção: Maria Borba
- Montagem Rio de Janeiro: Maria Borba e Ciranda de 3 trupe
- Realização: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, Secretaria de Cultura do Município do Rio de Janeiro e Semana de Arte e Cultura do Rio de Janeiro.











