Adaptar um livro para o cinema fielmente é praticamente impossível. São mídias diferentes, com formas próprias de narrar. Resta, então, decidir entre dialogar com o texto original ou confrontá-lo. Em “O Morro dos Ventos Uivantes”, Emerald Fennell se apropria da obra da escritora Emily Brontë e prefere ir pelo caminho da reinvenção.
A diretora reorganiza a narrativa em torno do desejo como força motriz e destrutiva. O problema não está na liberdade criativa, mas na forma como essa escolha reduz a complexidade emocional da obra, limitando esse sentimento a uma sucessão de impulsos físicos.
Visualmente, o filme se destaca pela intensidade. Do lado de fora, o vento constante, a lama que marca as roupas e a chuva que cai pesadamente sobre os personagens. Dentro de uma das casas, planos abertos diminuem os personagens diante da opulência retratada com diferentes texturas espalhadas pelos cômodos. Já os closes transparecem as emoções, principalmente o desejo, como se fosse possível sentir o toque das peles só de olhar para a tela. A fotografia alterna sombras densas com cores saturadas, contribuindo para a forte estilização com ares de gótico proposta por Fennell.
Contudo, toda a beleza do longa contrasta com sua narrativa vazia. O amor de Cathy e Heathcliff foi construído para ser algo trágico, impossível de acontecer. E ao invés de focar na tensão causada por barreiras como a ausência e a espera frustrante, Fennell prefere levar à tela uma paixão rapidamente consumada. Ao fazer essa escolha, o filme abre mão do desenvolvimento do casal e também perde a chance de abordar sexualidade, fetichismo e seus pormenores de forma mais inventiva — como ela mesma sugere que fará na cena inicial do longa.
Margot Robbie constrói uma Cathy instável, com uma interpretação expansiva (por vezes excessiva) que reforça a ideia de que a personagem é consumida por impulsos que não consegue administrar. Já o Heathcliff de Jacob Elordi transparece uma rigidez calculada que contrasta com a vulnerabilidade de sua versão jovem, algo essencial para compreender sua transformação. A transição entre essas duas fases não soa muito natural, como se o filme estivesse preocupado em marcar didaticamente a virada do personagem, e não em permitir que ela surgisse naturalmente.
Ainda assim, “O Morro dos Ventos Uivantes” encontra seus bons momentos, principalmente na primeira metade do filme. Acompanhamos Cathy e Heathcliff ainda jovens, compartilhando uma infância violenta, o que acaba desenvolvendo um vínculo de afeto e cuidado por meio de pequenos gestos de proteção. Quando os dois dividem a cama em silêncio após uma sequência pesada, a cena constrói algo genuíno, que poderia ser suficiente para justificar os sentimentos de ambos após o salto temporal, não fosse a forma irregular a qual essa relação é conduzida no decorrer da obra.
Fennell parece compreender que histórias de amor trágico nos atraem justamente pela ausência que carregam. Ainda assim, sua versão opta por preencher essas lacunas em vez de permitir que elas sejam sentidas. Ao fazer isso, transforma um romance sobre ausência e desejo reprimido em um espetáculo lindo de se observar, mas bem menos avassalador do que poderia ser.














