Previa: O Brasil enfrenta um crescente déficit na armazenagem de grãos, agravado pelas mudanças climáticas, o que preocupa os produtores rurais. Especialistas alertam para a necessidade de novas estratégias para garantir a qualidade e a conservação da produção agrícola.
Nos últimos anos, o déficit de armazenagem de grãos no Brasil se intensificou, especialmente em face das mudanças climáticas. A professora associada da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Solenir Ruffato, destaca que a situação se tornou um desafio estrutural para o agronegócio, refletindo a disparidade entre o aumento da produção e a infraestrutura disponível.
De acordo com Ruffato, a produção de grãos cresceu significativamente, mas a capacidade de armazenagem não acompanhou esse ritmo. Essa lacuna aumenta a vulnerabilidade do setor, especialmente em um cenário de eventos climáticos extremos que afetam a colheita e a conservação dos produtos.
Impactos das chuvas atípicas na armazenagem
No norte de Mato Grosso, por exemplo, a prática de armazenar milho a céu aberto, que antes era comum devido ao clima seco, se tornou arriscada. Este ano, a região enfrentou chuvas inesperadas que impactaram diretamente a qualidade do milho armazenado.
Ruffato relata que, durante junho e julho, a precipitação acumulada ultrapassou 70 milímetros, um volume considerável para um período tradicionalmente seco. As chuvas não apenas danificaram os grãos já armazenados, mas também afetaram a maturação do milho antes da colheita, resultando em lotes com qualidade variável.
Com a umidade elevada, o processo de secagem foi comprometido, levando a um aumento na presença de grãos avariados. Essa heterogeneidade exige que os produtores adotem novas estratégias de gestão para minimizar perdas econômicas e preservar o valor comercial da produção.
Novas soluções para a armazenagem
Em resposta a esses desafios, o silo bolsa surge como uma alternativa viável para melhorar a flexibilidade na armazenagem. Essa tecnologia permite a segregação de lotes com diferentes características, ajudando a manter a qualidade dos grãos conforme suas especificidades.
Ruffato ressalta a importância dessa ferramenta, especialmente em safras com variabilidade, como a observada neste ano em Mato Grosso. A situação é semelhante em outras regiões, como o Paraná, onde as condições climáticas também atrasaram a maturação do milho.
Com o avanço das mudanças climáticas, a dependência de condições climáticas previsíveis torna o armazenamento a céu aberto cada vez mais arriscado. A especialista prevê que essa prática deve ser reduzida, exigindo uma adaptação do setor às novas realidades climáticas.
Integração e inovação no setor agrícola
Durante o II Simpósio Internacional do Silo Bolsa, Ruffato enfatiza a importância da colaboração entre produtores, pesquisadores e a indústria. A troca de experiências é fundamental para identificar desafios comuns e desenvolver soluções adaptadas às diversas realidades agrícolas do Brasil.
A professora menciona a experiência da Argentina, onde a interação entre diferentes segmentos do agronegócio resultou em avanços significativos na armazenagem. Essa integração pode ser um caminho para o Brasil, que precisa enfrentar a diversidade de desafios regionais.
Ruffato conclui que o foco deve ser a redução de perdas e a garantia da qualidade dos grãos até o mercado. Cada região produtora tem suas particularidades, e é essencial que as soluções sejam adaptadas a essas especificidades.
O II Simpósio Internacional do Silo Bolsa reunirá especialistas e representantes da cadeia do agronegócio para discutir inovações e estratégias para o futuro da armazenagem agrícola, com o objetivo de aumentar a eficiência e reduzir perdas na pós-colheita.











