Previa: Um novo relatório revela a alarmante taxa de mortalidade e a violência em operações policiais na Baixada Fluminense, destacando a necessidade de uma reflexão sobre a eficácia dessas ações e seu impacto nas comunidades locais.
Entre 2020 e 2025, as operações policiais na Baixada Fluminense resultaram em 282 mortes, de acordo com um levantamento da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJRacial). O estudo, divulgado em 24 de julho de 2026, também contabilizou 5.298 operações, 5.783 prisões e 652 feridos, além da apreensão de 41 adolescentes. Esses números levantam questões sobre a abordagem do Estado em relação à segurança pública e seus efeitos nas populações mais vulneráveis.
A IDMJRacial, que atua na região há sete anos, tem como foco o enfrentamento da violência estatal e do racismo estrutural. A mestre em sociologia Kharine Gil, uma das pesquisadoras da organização, destaca que os dados revelam o modus operandi do Estado em áreas periféricas, sugerindo que as operações muitas vezes não trazem os resultados esperados para a população local.
O papel da Polícia Militar
Do total de operações, 86% foram realizadas pela Polícia Militar, que é responsável pelo policiamento ostensivo. O relatório aponta que o 15º Batalhão da PM, situado em Duque de Caxias, foi o mais ativo, com 1.289 ações, resultando em 71 mortes e 142 feridos. O 20º BPM, que abrange Mesquita, Nova Iguaçu e Nilópolis, realizou 1.034 operações, enquanto o 39º Batalhão, de Belford Roxo, fez 569 ações.
A Secretaria de Estado de Polícia Militar não comentou os dados do relatório, mas afirmou que suas operações são baseadas em critérios técnicos e estratégicos. A corporação justifica que as áreas com maior incidência de operações são aquelas com altos índices de violência e presença de organizações criminosas.
Aumento das operações da Polícia Civil
O relatório também revela um aumento significativo nas operações da Polícia Civil na Baixada Fluminense, que saltaram de 47 em 2020 para 336 em 2024, um crescimento de 614%. No entanto, a letalidade policial também aumentou, com um índice de 18% em 2025, o que levanta preocupações sobre a segurança e os direitos humanos na região.
A Polícia Civil atribui o aumento das operações à retomada das atividades após a pandemia e à criação de delegacias especializadas. A corporação afirma que suas ações visam cumprir mandados judiciais e proteger a população, mas o relatório sugere que a letalidade das operações é uma preocupação crescente.
Impacto econômico das apreensões
Outro ponto abordado no relatório é a predominância das apreensões de motocicletas, que representaram 60% dos veículos confiscados nas operações. O diretor executivo da IDMJRacial, Fransergio Goulart, destaca que essa prática afeta diretamente a economia popular, especialmente em um contexto onde muitos dependem das motos para trabalhar como entregadores ou mototaxistas.
Goulart argumenta que a apreensão de motocicletas não é apenas uma questão administrativa, mas uma forma de controle que afeta a capacidade de geração de renda das populações mais vulneráveis, intensificando a precarização do trabalho.
Armas apreendidas e a retórica estatal
O relatório também aponta que apenas 5,5% das armas apreendidas foram fuzis, enquanto pistolas e rádios comunicadores foram os itens mais confiscados. Kharine Gil critica a narrativa do Estado, que justifica operações policiais com a alegação de enfrentar um “arsenal de guerra” nas favelas, questionando se a violência utilizada é proporcional à ameaça real.
Esses dados levantam importantes reflexões sobre a eficácia das operações policiais e seus impactos nas comunidades, evidenciando a necessidade de uma abordagem mais humanizada e respeitosa aos direitos humanos nas políticas de segurança pública.











