Previa: O fenômeno climático El Niño, previsto para a safra 2026/27, pode trazer desafios significativos para a agricultura brasileira, aumentando o risco de doenças nas lavouras e exigindo um manejo mais estratégico por parte dos produtores.
O retorno do El Niño, especialmente em sua forma mais intensa, pode impactar diretamente a produção agrícola no Brasil. Com a previsão de alterações no regime de chuvas, os agricultores devem se preparar para enfrentar um clima irregular que pode afetar a saúde das culturas e a produtividade das lavouras.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aponta uma alta probabilidade de formação do fenômeno até julho deste ano, com continuidade das condições de El Niño durante o verão de 2026. Essa situação exige uma abordagem fitossanitária mais regionalizada e estratégica para mitigar os riscos associados.
Impactos Regionais nas Culturas Agrícolas
Os efeitos do El Niño não serão uniformes em todo o país. No Cerrado, por exemplo, a previsão é de chuvas irregulares, o que pode atrasar o plantio e impactar negativamente a produção de milho na segunda safra. Por outro lado, no Sul do Brasil, espera-se um aumento nas precipitações, criando um ambiente propício para o surgimento de doenças fúngicas.
Essa diversidade de cenários climáticos torna o planejamento agrícola mais complexo, uma vez que a interação entre temperatura, umidade e presença de patógenos pode variar significativamente de uma região para outra.
De acordo com Mário Drehmer, gerente sênior de Portfólio e Culturas da Sumitomo Chemical, a irregularidade climática pode resultar em lavouras com desenvolvimento desigual, aumentando a vulnerabilidade a pragas e doenças.
“A irregularidade no período de semeadura resulta em lavouras com fases de desenvolvimento distintas, aumentando o período de exposição às pragas e doenças”, afirma Drehmer.
Doenças na Soja e no Milho
Na soja, as condições climáticas podem antecipar o surgimento de doenças como ferrugem asiática e septoriose, que tradicionalmente aparecem no final do ciclo. Drehmer alerta que o monitoramento deve ser intensificado desde as fases iniciais da cultura para evitar perdas significativas.
Para o milho, o El Niño traz preocupações relacionadas a doenças foliares, como cercosporiose e ferrugem, que podem comprometer o desenvolvimento da cultura. A proteção fitossanitária deve ser uma prioridade, com o uso de fungicidas de amplo espectro desde os estágios vegetativos.
“O produtor precisa trabalhar com fungicidas de forma preventiva, principalmente nos estádios vegetativos, para reduzir riscos durante períodos favoráveis ao avanço das doenças”, destaca o especialista.
Desafios no Trigo e na Logística Agrícola
No trigo, a umidade excessiva pode favorecer o desenvolvimento da giberela, uma doença que compromete tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos. O monitoramento das condições climáticas e a aplicação correta de defensivos são essenciais para minimizar esses riscos.
Além dos desafios fitossanitários, o fenômeno também pode impactar a logística nas propriedades rurais. Chuvas intensas podem dificultar o acesso das máquinas ao campo, reduzindo as oportunidades de aplicação de fungicidas no momento ideal.
“O molhamento foliar favorece a germinação dos esporos, mas o excesso de água pode impedir operações agrícolas e diminuir as janelas de controle”, explica Drehmer.
Planejamento Antecipado e Manejo Regionalizado
Com a possibilidade de um El Niño mais intenso, é crucial que os produtores revisem seus protocolos fitossanitários e ajustem seus planejamentos operacionais antes do início da safra. A combinação de clima instável e maior pressão de doenças torna o manejo preventivo uma prioridade para garantir a produtividade e a rentabilidade das lavouras.
Especialistas afirmam que não há espaço para estratégias padronizadas, sendo necessário um manejo adaptado às realidades locais. A interação entre hospedeiro, ambiente e patógeno será determinante para o sucesso na próxima safra.
“Cada região, cada safra e cada condição de cultivo exigem estratégias de manejo adaptadas à realidade local”, conclui Mário Drehmer.











