Previa: O agronegócio brasileiro se prepara para atender novas exigências de rastreabilidade e sustentabilidade, que serão fundamentais para manter sua competitividade no mercado europeu. A partir de dezembro, a legislação da União Europeia exigirá monitoramento via satélite para a exportação de produtos agrícolas.
O agronegócio brasileiro encerrou 2025 com um resultado histórico nas exportações, alcançando US$ 169,2 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). No entanto, a continuidade desse desempenho, especialmente na União Europeia, dependerá da adaptação das cadeias produtivas às novas normas de rastreabilidade e sustentabilidade.
A partir de 30 de dezembro de 2026, o Regulamento Antidesmatamento da União Europeia (EUDR) entrará em vigor, exigindo que grandes operadores comprovem que seus produtos não estão associados a áreas desmatadas. As cadeias de soja e carne bovina, que são essenciais para as exportações brasileiras, serão as mais afetadas por essa nova legislação.
Rastreabilidade digital será obrigatória
De acordo com Diogo Bochnia Zuliani, professor do curso de Agronegócio da EAD UniCesumar, a nova regulamentação traz mudanças significativas nos processos de fiscalização. A validação da origem dos produtos deixará de ser baseada apenas em documentos físicos, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), e passará a exigir evidências digitais que comprovem a localização exata das propriedades rurais.
“Exportadores de commodities como carne bovina e soja precisarão apresentar provas técnicas e georreferenciadas da origem de seus produtos. Sem uma rastreabilidade robusta, os produtos poderão ser classificados como de risco, comprometendo o acesso ao mercado europeu”, explica o especialista.
O novo modelo de rastreabilidade prevê o cruzamento de coordenadas geográficas com imagens de satélite e bases de dados ambientais. Isso significa que toda a movimentação da produção terá que manter um vínculo documental e digital contínuo, desde a fazenda até a exportação.
“Na prática, a geolocalização da área produtiva será confrontada com mapas de cobertura florestal e imagens de monitoramento ambiental. A carga precisará manter uma trilha digital completa ao longo de toda a cadeia logística”, detalha Zuliani.
Brasil possui estrutura para atender às exigências
Apesar dos desafios, especialistas acreditam que o Brasil está tecnicamente preparado para atender às novas demandas internacionais. Um estudo realizado em maio de 2026, utilizando a ferramenta Fields of the World, mostrou que sistemas de inteligência artificial conseguiram identificar 97% das áreas agrícolas brasileiras com precisão.
Esse resultado reforça a capacidade do país de implementar sistemas de rastreabilidade em larga escala, utilizando tecnologias já disponíveis. Além do monitoramento via satélite, ferramentas de inteligência artificial e geoprocessamento têm ampliado a precisão das informações necessárias para comprovar a origem da produção agropecuária.
Sustentabilidade se transforma em vantagem competitiva
Os grandes produtores e empresas exportadoras já iniciaram o processo de adequação às novas exigências. Para os pequenos produtores, a implementação dependerá de suporte técnico e assistência especializada, além da atuação das cooperativas na organização das informações exigidas.
Segundo Zuliani, a tecnologia não deve apenas atender às exigências regulatórias, mas também proteger os produtores que atuam dentro da legalidade. A rastreabilidade é uma ferramenta que fortalece a transparência e protege aqueles que produzem de forma responsável.
“A garantia de origem transforma a sustentabilidade em uma evidência verificável. Se o Brasil utilizar a integração de dados e o monitoramento ambiental como estratégia nacional, poderá demonstrar ao mercado internacional que produz em escala, com segurança jurídica e responsabilidade ambiental”, conclui.
Na visão do especialista, essa conformidade não é apenas uma exigência regulatória, mas pode se tornar uma vantagem competitiva para as exportações brasileiras no mercado global.











