Prévia: Um estudo da Universidade de Brasília revela que a tarifa zero no transporte público pode melhorar o acesso a serviços de saúde, especialmente para populações vulneráveis. A pesquisa destaca como o custo das passagens limita a mobilidade e agrava desigualdades sociais.
A realidade de muitos brasileiros que dependem do transporte público é marcada por desafios que vão além da simples locomoção. Núbia Sales Veras, auxiliar de serviços gerais de 52 anos, vive na Cidade Ocidental, Goiás, e enfrenta diariamente a dificuldade de acessar serviços essenciais em Brasília, a cerca de 50 quilômetros de sua casa. O custo das passagens e a qualidade do transporte urbano impactam diretamente sua saúde e bem-estar.
Com uma tarifa que pode chegar a R$ 18 por dia, Núbia relata que já perdeu consultas médicas importantes devido à demora dos ônibus. “A situação limita não apenas meu tratamento, mas também a vida social da minha família”, afirma. Essa experiência é compartilhada por muitos que utilizam o transporte público em áreas metropolitanas, refletindo as conclusões de um estudo recente do Instituto de Ciência Política da UnB.
Desigualdades no acesso à saúde
O estudo, intitulado Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços, aponta que o custo do transporte e suas condições precárias criam barreiras significativas para o acesso à saúde. A pesquisa revela que essas dificuldades resultam em atrasos no diagnóstico e na continuidade do tratamento de doenças crônicas.
Além disso, os pesquisadores destacam que o prolongamento dos tempos de deslocamento afeta a saúde mental, contribuindo para o aumento de quadros de ansiedade e depressão, especialmente entre a população negra, que enfrenta uma sobrecarga maior devido a desigualdades raciais e socioeconômicas.
“As barreiras econômicas e territoriais à mobilidade incidem de forma desproporcional sobre essa população, limitando seu acesso à cidade e aos seus serviços”, enfatiza o estudo.
Helena Simão, uma aposentada de 72 anos, também ilustra essa realidade. Embora tenha gratuidade no transporte, ela enfrenta longos períodos de espera para os ônibus na periferia, o que já resultou em consultas médicas perdidas. A pesquisa revela que mulheres negras, como Helena, enfrentam o dobro do risco de morte materna em comparação com mulheres brancas, evidenciando a conexão entre transporte e saúde.
Tarifa zero como solução
Os pesquisadores defendem que a implementação da tarifa zero no transporte público poderia ser uma política transformadora. A remoção do custo da passagem não apenas facilitaria o acesso a serviços essenciais, mas também poderia atuar como uma ferramenta para reduzir desigualdades históricas nas cidades brasileiras.
“A tarifa zero tem potencial de transformar a relação da sociedade com políticas públicas, assim como o SUS fez na saúde”, afirma Paíque Duques Santarém, um dos autores do estudo.
Além dos benefícios sociais, a pesquisa anterior do mesmo grupo sugere que a gratuidade no transporte público nas capitais brasileiras poderia injetar R$ 60,3 bilhões anuais na economia, apresentando um impacto econômico significativo. A discussão sobre a tarifa zero destaca a necessidade de repensar o transporte público como um direito fundamental, essencial para a cidadania e a inclusão social.











