“Devoradores de Estrelas” não tem uma premissa exatamente original: enviar uma missão rumo ao desconhecido como última esperança diante da destruição inevitável. Mas a forma como os diretores Phil Lord e Christopher Miller decidem contar essa história é o que traz um frescor genuíno à narrativa.
O grande mérito da ficção científica como um todo não é tentar adivinhar o futuro ou colocar robôs e alienígenas para brigar. O gênero é precioso quando usa a ciência para falar de humanidade, de pessoas, seus anseios e conflitos. Aqui, o roteiro se apoia em conceitos técnicos e explicações detalhadas sem medo de exigir atenção do espectador. Mas no cerne, a trama abraça as falhas humanas e sentimentos universais como a solidão e a consciência da morte.
O espaço já é assustador o bastante por si só, e diversas obras já retrataram ameaças como chuvas de detritos ou planetas inóspitos. Em “Devoradores de Estrelas” não é diferente, mas o problema real que se apresenta é a solidão em seu estado mais puro. Ryland Grace (Ryan Gosling) era uma pessoa solitária na Terra, mas quando ele desperta desmemoriado em uma nave espacial, com uma tripulação reduzida a dois corpos sem vida à deriva no espaço, é aí que o isolamento ganha peso real.
Mesmo lidando com temas como extinção e isolamento absoluto, o longa evita o peso constante. A montagem alterna sequências no passado e no presente, usando flashbacks para preencher lacunas e revelar as decisões que levaram o protagonista até ali.
Ao chegar ao destino da missão, Grace encontra uma forma de vida alienígena que surpreende as expectativas convencionais, a quem ele apelida de Rocky. A relação é construída com calma, da desconfiança inicial ao aprendizado da comunicação. Há bastante humor nas tentativas de entendimento, mas também uma progressiva construção de afeto. E a amizade que se forma entre Grace e Rocky é o coração do filme.
Em vez de ir pelo caminho de “A Chegada”, mais denso e contemplativo no desenvolvimento da comunicação, os diretores optam por apostar no extraordinário carisma de Gosling. O ator dá vida a um herói relutante, mas bem-humorado e com muita química interagindo com a pedra superinteligente e de personalidade cativante interpretada por James Ortiz. Rocky, assim como Grace, está perdido e sozinho, e a conexão entre eles surge da vulnerabilidade de ambos e da necessidade de proteger o outro.
Sim, o filme é longo e entrega múltiplos desfechos, como se hesitasse em encerrar a jornada. No entanto, esses alongamentos não soam gratuitos. Cada retorno acrescenta uma camada ao percurso emocional dos personagens. O roteiro entrega arcos completos e satisfatórios — incluindo a excelente Eva Stratt (Sandra Hüller), que entrega uma cena musical marcante por si só, e que também marca uma grande virada no tom da narrativa.
“Devoradores de Estrelas” sabe exatamente como tocar o coração do público. É uma combinação eficaz de tensão e aventura, que acerta ao transbordar esperança, em vez de terror e destruição. Seu grande mérito é reforçar a ideia de que, mesmo diante do vazio absoluto, tudo muda quando se está ao lado de alguém.














