
Rafa Kalimann enfrentou o sentimento de solidão durante a gestação de Zuza Helena, de quatro meses, primeira filha com o cantor Nattan, mesmo contando com uma rede de apoio. Esse é um dos tópicos que aborda no documentário “Tempo para Amar”, que estreou no GNT no último sábado (09.05), em que a apresentadora detalha por que decidiu trocar a imagem idealizada da maternidade pela exposição real da própria experiência. Ela ainda conta como lidou com a saúde mental, culpa, pressão estética sobre o corpo pós-parto e a nova construção da dinâmica de casal depois do nascimento da filha. Confira o bate-papo abaixo:
Vogue: No primeiro episódio da série, você aborda a solidão da gestação. Como foi perceber que, mesmo cercada de apoio, existia um vazio emocional que poucas pessoas enxergavam? E como você lidou com isso durante a espera pela Zuza?
Rafa Kalimann: A maternidade nos deixa em um caminho de solidão porque ninguém consegue entender aquilo que a gente está sentindo. Às vezes nem a gente sabe. São mudanças, medos, inseguranças, incertezas e conflitos que são profundos. Há uma solidão enquanto mulher. É como se aquela que você era, na qual habitou a vida inteira, deixasse de existir. Você não consegue dar nome para as emoções, não consegue compartilhar com o outro e sente que está vivendo tudo aquilo ali muito sozinha. Mesmo com uma grande rede de apoio, tudo o que está acontecendo ali dentro de você é muito solitário. É uma solidão diferente.
Vogue: Como foi o momento em que você decidiu parar de tentar corresponder à “maternidade perfeita” das redes sociais e começar a mostrar mais verdade?
Rafa Kalimann: Foi ali pelo quinto mês [da gestação]. Senti que poderia me vulnerabilizar e abrir minha casa, minha vida, e o momento mais sagrado dela para compartilhar com os outros. Sentia uma vontade de dar um abraço e receber um abraço. Achei que a única maneira de conseguir abraçar outras mulheres seria vivendo e mostrando minha experiência. Posso ficar horas tentando explicar esse sentimento [da maternidade], mas provavelmente não vou conseguir. Ao mostrar, sinto que as mulheres poderão se identificar.
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Vogue: Durante a gestação, você buscou relatos reais de outras mulheres para se sentir mais acolhida. O que mais te surpreendeu ao perceber que muitas dessas experiências ficavam escondidas por trás de uma maternidade idealizada?
Rafa Kalimann: Não existe, nas buscas que fiz, uma maternidade ideal. Existe uma maternidade possível. E é muito importante ter isso claro ao engravidar para diminuir as frustrações. Há uma exigência da sociedade sobre a mulher grávida: que ela esteja radiante o tempo todo. De fato, é um momento sagrado e muito feliz! Mas também carrega questões desafiadoras. Meio que nos sentimos culpadas durante a gestação ao não estarmos 100% felizes e realizadas. Tem um bilhão de coisas acontecendo dentro da mulher, nascem sentimentos novos.
Vogue: A pressão estética e a cobrança por um “corpo pós-parto perfeito” são temas recorrentes nas redes sociais. Como foi para você, que vive sob olhar público, enfrentar as transformações do corpo durante e depois do parto?
Rafa Kalimann: Nos primeiros meses, me fechei em um casulo, me ausentei das redes sociais. Compartilhava apenas coisas muito específicas justamente porque não queria correr o risco de ser sugada pela expectativa do público, de depositar expectativas sobre mim. Claro que gera uma falta de identidade [com o corpo pós-parto]. Às vezes, me olho no espelho e não me encontro 100%. Até as curvas são diferentes. Claro que vai ser um processo, meu corpo acabou de gerar o ser mais especial da minha vida, e isso é maior do que qualquer pressão estética.
Vogue: No documentário, você fala sobre expectativas irreais em relação à maternidade. Qual foi uma ilusão que você tinha antes de ser mãe e que caiu por terra nestes primeiros meses com a Zuza?
Rafa Kalimann: Todas. Literalmente todas. Tudo o que idealizei caiu por terra. Desde o parto até como seria minha rotina como mãe. Por isso é tão importante falar sobre maternidade para que outras mulheres não se prendam aos ideais. Nas primeiras noites [depois que a Zuza nasceu], eu não dormi, ficava acordada olhando para ela. Não dormi porque não sabia se eu podia, entende? Só depois você vai se encontrando.
Rafa Kalimann
Lufré/ Vogue Brasil
Vogue: A saúde mental na gestação e no pós-parto é um dos temas centrais. Como diferenciou o que era “normal” do que pedia ajuda profissional?
Rafa Kalimann: Desde o momento em que descobri a gravidez, todo cuidado que tive com a saúde física, tive com a saúde mental. Sou diagnosticada com depressão e tive síndrome do pânico. Então não consegui diferenciar o que era hormonal ou o que era do diagnóstico. Tudo se soma. Foi muito importante ter um acompanhamento [psicológico] mais de perto porque não queria que minhas emoções afetassem ela [Zuza]. Isso fez com que me cuidasse mais ainda, tive uma maturidade maior em relação a minha saúde mental. Quero estar bem para ela.
Vogue: Você falou sobre as “tantas opiniões vindas de fora” que cercam a maternidade. Como foi o processo de aprender a filtrar conselhos não solicitados de familiares, amigos e até desconhecidos na internet?
Rafa Kalimann: No começo da gestação era uma enxurrada de informação e meu algoritmo só entregava isso. Foi muito difícil alinhar as informações. Eu falava “não vou saber nem dar banho nessa criança”. Foi gerando muita ansiedade. Sobre as pessoas próximas a mim, elas já conhecem minha personalidade, o que impõe limites sobre opiniões. Recebo bem quando existe uma intenção de acolhimento, mas sempre dialoguei muito. Com minha mãe, por exemplo, tem uma questão geracional importante de ser levada em consideração. Era muito diferente quando ela me teve há 33 anos. E são coisas bem simples. Na última semana da gestação, com a expectativa grande da vinda da bebê, minha obstetra me orientou a tomar um chá de canela [que auxilia a induzir o parto, pois pode estimular contrações uterinas]. Minha mãe ficou desesperada com a ideia: para ela, não poderia tomar de jeito nenhum durante a gestação. Ela aprendeu assim, não tinha as mesmas informações que temos hoje.
Vogue: Você menciona que a maternidade acontece “dentro do que é possível”. Como foi aprender a se perdoar nos dias em que o possível foi “pouco”? Quando o cansaço, a culpa ou a frustração falaram mais alto?
Rafa Kalimann: Será que a gente se perdoa? Adoro uma entrevista com a Fernanda Young na qual perguntam: “Você não se sente mal de deixar seus filhos em casa para trabalhar e fazer suas coisas?”. Ela responde: “Quero que meus filhos me vejam feliz. Eles vão ser felizes se a mãe estiver feliz”. Isso é muito importante. Quero que minha filha me veja correndo atrás dos meus sonhos buscando os meus objetivos, que ela tenha essa referência de uma mãe que tem a vida dela. Como mulher, preciso entender que preciso ter minha vida. Mas existe muita culpa e ela não some por nada. Até em casa, quando não entendo por que ela está chorando, sabe? A gente fala muito da culpa e precisamos falar para nos libertarmos dessa amarra. Mas é importante enfatizar o quanto o outro lado da maternidade é maior. É sublime, o amor ocupa muito mais espaço no dia a dia, na vida, do que a culpa.
Vogue: A chegada de um filho transforma completamente a dinâmica do casal. Como você e Nattan redescobriram a intimidade, o diálogo e a parceria nesse processo?
Rafa Kalimann: Ter um parceiro que escuta faz uma diferença enorme. Para ele, o paternar também é novo e ele não teve referência paterna quando era criança, o que gera muita troca entre a gente. Na nossa relação, temos o entendimento de que somos namorados e precisamos alimentá-la. Semana passada o acompanhei em um show e foi tão gostoso, volta para esse lugar de “namoro”. Claro que nossa responsabilidade mudou por completo e o protagonismo da Zuza é gigante dentro de casa. Mas afirmamos e alimentamos o tempo todo o espaço que um tem na vida do outro.
Rafa Kalimann
Lufré/ Vogue Brasil
Vogue: Depois de passar por essa jornada, do pré ao pós-parto, o que você diria para a mulher que está grávida, cheia de dúvidas, e com medo de não ser “boa o bastante”?
Rafa Kalimann: Ser mãe é mais intuitivo do que parece. Você repara em si mesma e pensa: “Em que momento aprendi a fazer isso aqui?” Aprender a confiar em você mesma e a pedir ajuda são importantes. Pedir ajuda não só nas coisas práticas, mas na empatia, no acolhimento. Demorei para fazer isso e, quando fiz, foi um alívio muito grande. Também posso falar que as coisas voltam. Já estou sentindo isso, de me encontrar, do trabalho voltar [ao ritmo], das coisas fluírem. O ponto principal é deixar o tempo exercer o papel. A maternidade é muito sobre esperar.
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