
Não faz muito tempo que eu percebi que eu era um homem do século XIX.
A revelação não aconteceu de uma hora para outra e, quando finalmente se consolidou, passou a pesar como um desconforto persistente, como quando apagamos a luz para dormir e, pelo zunido quase imperceptível, sabemos que há um mosquito no quarto. O mosquito passou a morar na minha consciência. Identidade não é algo que simplesmente se revela. O que dizemos sobre nós mesmos é o que constrói a identidade que apresentaremos ao mundo. As histórias sobre o eu formam o eu. E o cimento dessas histórias são as narrativas que estiveram à nossa disposição.
Perdi meu pai aos seis anos, cedo demais para guardar dele uma memória organizada. Não sei se é assim com todos que perdem alguém tão cedo, mas há uma sensação estranha de não conseguir distinguir com clareza o que é memória e o que é invenção de memória construída a partir das histórias contadas pelos outros. “Você lembra dele?”, me perguntam. “Talvez”, digo eu.
Na minha adolescência, tentando depender menos desse talvez, fui procurá-lo nos poucos livros que ele havia deixado. Meu pai veio de uma família imigrante pobre. Foi o último de cinco filhos e seria o único a concluir um curso superior se sua morte aos 39 anos não tivesse interrompido o projeto. Ainda assim, foi muito mais longe do que a minha avó, que morreu sem nunca aprender a ler e escrever. Ele gostava de ler e lia Zola, Victor Hugo, Tolstoi… Autores de uma tradição que consolidou o sujeito masculino europeu como centro da narrativa moral e histórica.
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Ao ler os livros do meu pai, eu me aproximava dele enquanto construía o que viria a ser eu. A literatura que consumi tornou-se matéria de identidade. Cada livro foi um fragmento de mundo incorporado quase sem perceber, uma lente para interpretar experiências, um vocabulário moral para organizar conflitos. Quando lemos, não observamos apenas universos alheios: ensaiamos formas de existir. Minha formação, portanto, tinha gênero, tempo e lugar. Eu era um homem europeu do século XIX. E isso, por um lado, era maravilhoso.
“Na planície rasa, sob a noite sem estrelas, de uma escuridão e espessura de tinta, um homem caminhava sozinho.” Tenho até hoje o exemplar antigo de Germinal que era dele. O texto é visceral: fome, violência e desespero coletivo descritos com intensidade quase física. É o mesmo Émile Zola que, anos depois, acusaria publicamente o Estado francês de condenar injustamente o capitão Alfred Dreyfus, transformando o escritor em agente político direto. Alguém que não se limita a narrar a sociedade, mas intervém nela, assumindo o risco pessoal em nome de um princípio de justiça.
Gabriela Prioli
Renata Zambello/Divulgação
“Além do mais, antes que me digam, vocês têm um nome que eu já sei.” Victor Hugo me ensinou sobre dignidade e compaixão. Jean Valjean chega a Digne marcado pelo estigma do ex-presidiário, rejeitado nas estalagens, tratado como ameaça. Quando bate à casa do bispo, espera mais uma negativa. Em vez disso, recebe abrigo. A casa é de todos que precisam, diz o bispo, e antes que lhe digam o nome, afirma que já o conhece: “o seu nome é meu irmão”.
Naquela noite, Valjean ainda rouba a prataria e é levado de volta pela polícia. O bispo, porém, confirma que os objetos eram um presente e lhe entrega também dois castiçais de prata. Com esse gesto inesperado de misericórdia, o bispo não apenas salva Valjean da prisão, mas o confronta moralmente: diz-lhe que comprou sua alma para o bem e que agora ele pertence à honestidade. É aí que se abre a possibilidade de redenção por meio da graça e da compaixão.
Formada assim, como duvidar do alicerce? Como ousar questioná-lo?
Fernando Pessoa talvez seja a pitada do Século XX nos meus tijolos internos. Poucos livros revelaram o meu mundo íntimo tanto quanto o seu Livro do Desassossego. “E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa: uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende.”
Foi esse mesmo Pessoa desassossegado que me atravessou quando o incômodo começou a ganhar forma: “sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”. Eu, afinal, enxergava algumas coisas muito bem, mas havia muito que estava além do meu campo de visão. Na reconstrução constante dessa narrativa pessoal que nos organiza, eu comecei a sentir falta de algo que, de início, eu não soube nomear, como se houvesse experiências que eu reconhecia, mas não encontrava registradas.
Não havia mulheres na biblioteca do meu pai. Foi só mais tarde que compreendi que a ausência não dizia respeito à falta de mulheres escrevendo, dizia que elas haviam sido progressivamente deslocadas para as margens, até que parecessem ausentes. Se eu quisesse realmente conhecer a literatura — e a mim mesma —, precisaria revisitar aquelas estantes e ampliá-las. Nem tanto por um gesto de correção política, embora esses gestos sejam necessários, mas, naquele momento, por uma necessidade íntima de coerência. Era preciso questionar e mergulhar naquilo que ficou de fora.
Foi esse o vazio que antecedeu o meu salto. Eu tinha tantas coisas dentro de mim e era como se me faltasse algo fundamental. Faltava mais daquilo que era como eu.
O silêncio, ainda que não descoberto, sempre esteve ali. Mais ou menos incômodo, ele aparecia quando faltavam as palavras, as vivências, os exemplos. Estamos ali, sabemos que não é a primeira vez, mas não temos com quem conversar. Olhamos para lá, sabemos que uma de nós já esteve lá antes, mas não conhecemos os espaços de diálogo. Fomos alijadas das nossas outras. E então nos sentimos constantemente sozinhas.
Revistas Se eu havia sido afastada das minhas iguais, era hora de encontrá-las. Foi na companhia de um grupo extraordinário de mulheres que eu pude, pouco a pouco, ir preenchendo as minhas lacunas. É a elas que eu pretendo apresentá-los ao longo dos próximos meses. Maria Firmina dos Reis, Júlia Lopes de Almeida, Cora Coralina, Cecília Meireles, Raquel de Queiroz, Patrícia Galvão, Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon.
Elas não substituíram ninguém. Apenas ampliaram o horizonte. E foi assim que deixei de ser apenas um homem europeu do século XIX e passei a ser uma mulher feita de muitos mundos.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue
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