
A arte brasileira é marcada por um evidente – e atípico, se formos considerar a raiz cis heteronormativa masculina desta seara – protagonismo feminino. Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Maria Martins, Mira Schendel, Lygia Clark são apenas algumas das icônicas mulheres que pavimentaram os caminhos da nossa arte ao longo de sua história. Mas a representação nacional na Bienal de Veneza, desde a fundação do pavilhão brasileiro em 1964, nunca chegou a refletir com a devida justiça e precisão esta estrondosa e fundamental presença em nossa arte. O protagonismo feminino negro então, muito menos. Tal erro histórico é corrigido na 61ª edição do evento, aberto para o público no dia 9 deste mês, reunindo, para representar o Brasil, não uma, nem duas, mas três potentes vozes da nossa produção artística: as artistas Adriana Varejão e Rosana Paulino, sob a curadoria de Diane Lima. “Ter uma composição com três mulheres é algo pioneiro. Assim como ter uma primeira mulher negra curadora e uma primeira artista negra”, comemora Diane em entrevista à Vogue. “É uma prática curatorial comprometida com uma perspectiva negra feminista”, completa.
Tudo começou quando Diane teve seu primeiro contato com o texto curatorial desta edição da Bienal de Veneza, escrito pela camaronesa-suíça Koyo Kouoh, curadora responsável por esta edição do evento – e a primeira africana a assumir este posto em toda a sua história –, que faleceu no ano passado. “Ela fala: ‘Relaxe os ombros, respire profundamente, inale, exale e feche os seus olhos’. Eu fiz esse exercício e falei: ‘Quero entrar nesta frequência’. E comecei a pensar no que é que estaria à altura, como ela diz no texto, ‘dessa beleza apesar da tragédia’?”, relembra a curadora baiana. “Automaticamente, pensei nos trabalhos da Rosana e da Adriana. São duas artistas que há mais de 30 anos vêm promovendo um debate sobre as feridas e as violências coloniais, sobre a violência racial”, emenda.
Rosana Paulino, Diane Lima e Adriana Varejão estampam a nossa capa digital
Vogue Brasil
Diane usa vestido, casaco e cinto, tudo OSKLEN, brincos EPIPHANIE e sapatos BOTTI.
Vogue Brasil/ Caia Ramalho
Formado o triunvirato, Adriana, Rosana e Diane tiveram entre cinco e seis meses para dar vida ao projeto curatorial, intitulado Comigo Ninguém Pode, mesmo nome da planta venenosa popular nos lares de todo o país pelo seu simbolismo de proteção contra energias negativas. “Independentemente da religião, das origens, todo mundo sabe o que é essa planta”, defende Adriana Varejão. “Ela resume muito bem esse lugar superssincrético da nossa espiritualidade e traz uma energia sensorial, da ordem do invisível, do que transcende”, emenda Diane. “É muito menos um tema e muito mais uma energia, uma sensação mesmo”, resume a curadora.
Adriana usa vestido OSKLEN
Vogue Brasil/ Caia Ramalho
A ideia de se inspirar na célebre planta para o tema curatorial, inclusive, veio de um insight de Diane, radicada em Nova York, onde atualmente leciona e está concluindo seu phD no departamento de Spanish and Portuguese da New York University, ao ver Diálogos do Dia e da Noite, mostra individual de Rosana Paulino na filial nova -iorquina da galeria Mendes Wood no ano passado. A mostra continha a série Senhora das Plantas, em que figuras femininas se transformam em diferentes plantas – entre elas, as comigo-ninguém-pode. “Diane viu esses trabalhos em Nova York e foi de encontro àquilo que ela já estava pensando”, comenta Rosana. “Existe uma resistência também no florescer, mesmo diante das mais terríveis experiências”, pondera a artista paulistana que, simultaneamente, inaugura exposição em Nantes e tem ainda outra mostra já programada para outubro deste ano em Paris.
Rosana usa vestido FOZ e brincos ARA VARTANIAN
Vogue Brasil/ Caia Ramalho
Apesar da composição inédita e inesperada – “É um encontro que nunca havia sido pensado até então, de duas das maiores artistas brasileiras, não só por uma questão de visibilidade, de fama, de inserção institucional, mas que são tecnicamente excelentes, e que desenvolveram práticas extremamente inventivas”, pontua a curadora –, a conexão foi profunda e completa, revelam as duas artistas. “Foi harmonia total, das três. Entre milhões de reuniões e encontros, cada passo dado era discutido por nós três. Foi um processo muito dinâmico e de escuta e de encontro e de mesmo propósito”, recorda Adriana. “Apesar da diferença de linguagem de solução para as coisas, nossas obras têm uma proximidade muito grande conceitual, falam dos mesmos temas, das feridas do colonialismo”, emenda. “A chave é justamente esta: a narrativa não é a mesma. É diálogo, é diferente, como se fosse um concerto onde a gente toca instrumentos diferentes, mas que conflui no mesmo arranjo, na mesma música”, complementa Rosana.
Adriana usa vestido OSKLEN
Vogue Brasil/ Caia Ramalho
Esse “concerto” de Adriana e Rosana encontrou seu primeiro desafio na própria arquitetura modernista do pavilhão brasileiro, formado por dois retângulos separados por uma viga que, ao longo das décadas, se tornou um divisor limitante para as exposições ali propostas. Mas o que poderia ser obstáculo virou solução criativa, elas contam. “O que sempre foi um elemento de separação era quase uma terceira sala do pavilhão, e ninguém tinha se dado conta”, comenta Adriana. “A gente quis então fazer um projeto que unisse as nossas obras”, segue a artista carioca, que, a partir do desafio, fez 12 pinturas que colocou dentro da viga, “como se fossem aqueles afres cos de teto, de igreja. São 12 pinturas em grande formato, da série Azulejões, que traz aquela pintura craquelada baseada na iconografia barroca, mas que são de anjos, anjos que vão ficando vermelhos ao longo dessa linha”, adianta Varejão. Já Rosana, diante da questão, resgatou de sua produção o site specific Arácnis, trabalho da artista de 1996 instalado no Paço das Artes em São Paulo, onde ela vai criando teias na estrutura de ferro, trazendo com elementos de tecido a impressão de rostos de pessoas escravizadas. “Foi um diálogo muito fino, que passou por questões cromáticas, matéricas, formais de um modo geral, mas também iconográficas”, comenta Diane sobre a simbiose criativa entre as duas artistas.
Diane usa vestido, casaco e cinto, tudo OSKLEN, e brincos EPIPHANIE.
Vogue Brasil/ Caia Ramalho
A partir dessa instalação conjunta, novos e surpreendentes trabalhos foram surgindo. Rosana concebeu obras inéditas como Calunga Grande e o Atlântico Vermelho 2 / Veneza, além do primeiro bronze de sua trajetória: a escultura Crisálida, feita a partir de um desenho de autoria da artista de 20 anos atrás, Ninfa Tecendo Casulo – a novidade e sua fonte referencial estarão em exposição no pavilhão brasileiro. Já Adriana, em resposta à Arácnis, ocupou todas as paredes em volta com ruínas. “Só que desta vez, em vez de fazer aquelas ruínas de carne que eu costumo fazer, fiz uma espécie de metamorfose com a tinta a óleo mesmo”, revela.
Revistas “Parti da simulação de um concreto que vai ganhando vida e vira carne. Aí, ele vai virando talha barroca, ouro e cerâmica que, a partir daí, vai se transformando numa terra escura e, depois, em planta. São quase 100 metros lineares de pintura”, orgulha-se a autora, que também levou para o pavilhão trabalhos de sua trajetória como Paisagem Canibal, realizado depois de uma experiência da artista em uma aldeia ianomâmi dentro de um projeto para a Fundação Cartier em 1993 e que, este ano, além da Bienal, já tem outra exposição marcada em Veneza, na filial italiana da galeria londrina Victoria Miro e na sequência, ganha mostra panorâmica no Pérez Art Museum, em Miami.
Rosana usa vestido FOZ e brincos ARA VARTANIAN
Vogue Brasil/ Caia Ramalho
A presença brasileira, reflete o trio, tem implicações que vão muito além da representação geográfica. “Ocupar o pavilhão brasileiro neste momento é extremamente importante. Três mulheres, isso nunca aconteceu na história do pavilhão brasileiro. Dentre essas três mulheres, duas negras, então, muito menos. Nunca no pavilhão brasileiro um curador negro, nem uma mulher ocupou esse espaço”, destaca Rosana. “Isso coloca ali as questões de um Brasil que não foi visto, que não foi pensado, um país que não se investigou enquanto historicidade”, reflete. “É uma composição que em si revela as nossas posições, não somente numa dimensão de gênero, mas também de classe, de raça”, defende Diane que, em setembro, assina a curadoria do 39º Panorama da Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna de São Paulo, mostra que reabre o museu paulistano depois de dois anos de reforma. “Do ponto de vista da arte, é uma curva mesmo, que coloca duas grandes artistas do nosso país numa mesma posição, confrontando seus trabalhos, produzindo tensão, mas também equilíbrio”, arremata a curadora.




