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Zé Buscapé

Em busca de um metro quadrado no congestionado pedaço de terra no qual se digladiam as candidaturas à direita da direita, Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e presidenciável, tem tentado várias táticas. Valeu-se de uma ironia muito particular quando decidiu comer, em um vídeo, uma banana com casca e tudo. Em seguida, imbuiu-se do espírito de mineiro bonachão e simplório, um político que não era “beliscoso”, conforme declarou em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura. Após o esforço redundar apenas em chacotas e memes, Zema, a cerca de cinco meses das eleições, mudou de estilo. Nas últimas semanas, tornou-se uma espécie de Robespierre das Alterosas, decidido a colocar o terror, em busca de alguma atenção das alas bolsonaristas e da parcela mais extremada do eleitorado. Ataques ao Supremo Tribunal Federal se misturam a propostas como a privatização geral e irrestrita, críticas aos beneficiários de programas sociais e a defesa do trabalho infantil. É o novo radical da praça.

Não se trata de uma conversão tardia e aleatória ao extremismo. Zema tem seguido à risca as ordens de seu marqueteiro, Renato Pereira, responsável pela condução da estratégia de projeção nacional do ex-governador. Com muitos postulantes à posição de anti-Lula e antiesquerda, o mineiro tenta apresentar-se como uma alternativa viável, ampliando sua visibilidade para além das fronteiras estaduai­s e buscando ocupar espaço no debate nacional. De olho, se não em um crescimento na pesquisa, em um convite para ocupar a vice na chapa do representante original desse campo, o senador Flávio Bolsonaro. “A estratégia dele é ser linha auxiliar do bolsonarismo. O padre Kelmon da eleição de 2026, com muito mais qualidades e experiências de gestão”, afirma o cientista político Rudá Ricci. “O papel de Zema é mostrar-se mais radical que todos os candidatos da extrema-direita, estratégia que busca reposicionar Flávio Bolsonaro como uma figura mais moderada.” ­Rudá emenda: “Zema pode estar, simplesmente, cumprindo um acordo político”.

Segundo pesquisas internas do partido Novo, ao confrontar o Supremo e vocalizar críticas ao que chama de “aparelhamento” das instituições, o ex-governador flerta com os setores mais radicalizados da direita. Como um personagem em construção não de uma liderança consolidada – ora Chico Bento, ora Zé Buscapé –, as propostas defendidas por Zema reforçam esse novo posicionamento. Após reiterar que pretende “privatizar tudo”, o presidenciável passou a defender a revisão de programas sociais, o endurecimento das regras de concessão de benefícios e uma nova e mais profunda reforma da Previdência. “Não podemos estar dando ganhos reais para quem está aposentado. O Brasil não comporta isso”, defendeu. Na mesma linha, propôs a elevação da idade mínima para as aposentadorias e o fim dos reajustes dos proventos acima da inflação.

O presidenciável tenta ser o mais radical dos radicais

Ao tratar de políticas de trans­­fe­­­­rên­­cia de renda, associou os beneficiá­rios do programa Bolsa Família a aproveitadores, ao estilo de Jair Bolsonaro na campanha de 2018. Criticou o que considera uma suposta dependência da população dos benefícios sociais e prometeu endurecer as regras de acesso. “Não vou pagar auxílio do governo para marmanjões. Estamos criando no Brasil uma geração de imprestáveis.” A declaração gerou forte repercussão.

Nada caiu, no entanto, tão mal quanto a proposta de liberar o trabalho infantil. Em uma escalada, Zema culpou a esquerda por supostamente incutir a mentalidade­ de que crianças não podem trabalhar. Diante das reações, tentou minimizar a declaração anterior, afirmou que defendia a contratação de adolescentes e deu como exemplo um programa existente, o Jovem Aprendiz, que estabelece estágios de menores a partir dos 14 anos, supervisionados e limitados a uma determinada carga horária. Não foi o suficiente. O ministro-chefe da Secretaria-geral da Presidência, Guilherme Boulos, aproveitou a deixa para colocar a ideia do ex-governador nos termos certos. Segundo Boulos, trata-se de “covardia”. O deputado federal Lindbergh Farias, do PT, foi na mesma toada. “É a velha mentalidade atrasada. Trabalho infantil não é solução, é retrocesso. Criança tem de estar na escola, não trabalhando”, resumiu.

A nova persona­ de Zema talvez faça sucesso entre os bolsonaristas, mas cobra um preço. Para Ricci, a radicalização do ­ex-governador reflete uma disputa por espaço no estado, contra o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL, que tenta tornar-se o herdeiro dessa fatia ideológica. Em Minas, principal reduto eleitoral de Zema, levantamentos recentes indicam uma queda consistente nos índices de aprovação, acompanhada pelo aumento da rejeição. “Trata-se de sinais relevantes de desgaste em um estado historicamente mais moderado”, entende Rudá.

Inspiração. Zema trocou o estilo caipira bonachão pelo mau humor do matuto do desenho animado – Imagem: Hanna-Barbera Productions

Números da pesquisa da ­Genial/Quaest indicam a dificuldade de Zema construir um legado no estado, pois 49% dos eleitores dizem que o ex-governador não merece eleger um sucessor.  Desde fevereiro de 2025, a satisfação com a gestão derrapou e a insatisfação cresceu. Em pouco mais de um ano, a parcela dos mineiros que vê a administração como “positiva” caiu de 41% para 32%, enquanto a percepção do trabalho como “negativo” saltou de 14% para 26%.

Além da queda de popularidade, cresce a dificuldade de Zema transferir capital político para aliados e potenciais candidatos apoiados por ele. O paradoxo expõe o risco central da estratégia adotada, que é ambígua. Se por um lado amplia sua presença no debate nacional e garante visibilidade, por outro provoca desconforto entre eleitores que o apoiaram nas últimas eleições. “Ele pode perder o eleitor de centro sem garantir o eleitor de confronto”, admite um parlamentar da base zemista. Ao trocar a moderação pelo enfrentamento, o mineiro tenta um lugar ao sol no neoextremismo à brasileira. Resta saber se a aposta será suficiente para torná-lo competitivo ou se ele terá meros 15 minutos de fama, como tantos outros na história das disputas presidenciais. Por ora, o silêncio deixou de ser uma opção, mas vale lembrar o velho ditado: quem fala demais dá bom dia a cavalo. •

Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Zé Buscapé’